UNIVERSIDADE
ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA
DEPARTAMENTO
DE CIENCIAS HUMANAS LETRAS – DCHL
DOCENTE:
MARIA DA CONCEIÇÃO FERREIRA
DISCENTE:
DÉBORA SANTOS DE OLIVEIRA
3º
SEMESTRE DE PEDAGOGIA NOTURNO
FICHAMENTO
DO TEXTO: CIBERCULTURA.
Lemos, André; Cunha, Paulo (orgs). Olhares sobre
a Cibercultura. Sulina, Porto Alegre, 2003; pp. 11-23.
Um
primeiro problema que se apresenta é em relação à própria definição de
Cibercultura. O termo está recheado de sentidos, mas podemos compreender a
cibercultura como a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre
a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base microeletrônica que
surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de
70. (p.1).
A
cibercultura é a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais.
Vivemos já a cibercultura. Ela não é o futuro que vai chegar mas o nosso
presente (home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto
eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros). Trata-se assim de
escapar, seja de um determinismo técnico, seja de um determinismo social. A
cibercultura representa a cultura contemporânea sendo consequência direta da
evolução da cultura técnica moderna. (p.1-2).
Não
se trata de identificar pessimistas, otimistas ou “realistas”, até porque ser
otimista ou pessimista é uma prerrogativa individual. O que importa é evitar
uma visão de futuro que seja utópica ou distopia e nos concentramos em uma
fenomenologia do social, ou seja, nas diversas potencialidades e negatividades
das tecnologias contemporâneas. ( p.2).
Não podemos compreender a cibercultura sem
uma perspectiva histórica, sem compreendermos os diversos desdobramentos
sociais, históricos, econômicos, culturais, cognitivos e ecológicos da relação
do homem com a técnica. A cibercultura nasce no desdobramento da relação da
tecnologia com a modernidade que se caracterizou pela dominação, através do
projeto racionalista-iluminista, da natureza e do outro. Se para Heidegger
(Heidegger, 1954) a essência da técnica moderna estava na requisição
energético-material da natureza para a livre utilização científica do mundo, a
cibercultura seria uma atualização dessa requisição, centrada agora na
transformação do mundo em dados binários para futura manipulação humana
(simulação, interatividade, genoma humano, engenharia genética, etc.). (p.2).
Cada
transformação midiática altera nossa percepção espaço temporal, chegando na
contemporaneidade a vivenciarmos uma sensação de tempo real, imediato, “live”,
e de abolição do espaço físico-geográfico. A sociedade da informação é marcada
pela ubiquidade e pela instantaneidade, saídas da conectividade generalizada.
Entramos assim em uma sociedade WYSIWIG (o que vejo é o que tenho) onde a nova
economia dos cliques passa a ser vital para os destinos da cibercultura: até
onde devemos clicar participar, opinar, e até quando devo contemplar ouvir, e
simplesmente absorver? O tempo real pode inibir a reflexão, o discurso bem
construído e a argumentação. Por outro
lado o clique generalizado permite à potência da ação imediata, o conhecimento
simultâneo e complexo, a participação ativa nos diversos fóruns sociais. (p.
3).
A
cibercultura nos coloca também diante de problemas linguísticos e conceituais e
não é por acaso a crescente utilização de metáforas para descrevermos os seus
diferentes fenômenos. O que significa uma “Home Page”? E a interface chamada de
“desktop”? As redes telemáticas, constituem o que chamamos de ciberespaço, mas
trata-se mesmo de um espaço? Vários conceitos emergem associados às novas
tecnologias, mas tratar-se-ia de atualizações de experiências comuns em
diversas atividades humanas, como a ideia de interatividade, de simulação, de
site (sítio), de virtual? (p. 4.).
Podemos
dizer que a Internet não é uma mídia no sentido que entendemos as mídias de
massa. Não há fluxo um - todos e as práticas dos utilizadores não são vinculados
a uma ação específica. Por exemplo, quando falo que estou lendo um livro,
assistindo TV ou ouvindo rádio, todos sabem o que estou fazendo. Mas quando
digo que estou na internet, posso estar fazendo todas essas coisas ao mesmo
tempo, além de enviar email, escrever em blogs ou conversar em um chat. Aqui
não há vinculo entre o instrumento e a prática. A internet é um ambiente, uma incubadora
de instrumentos de comunicação e não uma mídia de massa, no sentido corrente do
termo. (p. 5).
Muito se tem falado do anonimato e da
ausência de referência física como um dos fatores principais dessas novas
práticas sociais. Muito se tem falado também do perigo e da dificuldade em se
estabelecer relações de confiança em formas midiáticas online. Obviamente que
questões inéditas surgem comprovadas através de certo lastro empírico, mas as
diferenças devem ser matizadas já que várias práticas guardam similitudes com
as formas sociais e os papéis que desempenhamos no dia a dia fora da rede. A
relação face a face guarda similitudes com as relações online. (p. 6).
Os
artistas exploram muito bem essa reconfiguração do corpo, como por exemplo o
australiano Stelarc ou a francesa Orlan. No fundo, buscam problematizar a
própria idéia de um corpo único, imutável e natural. Para Stelarc, na
cibercultura, o corpo torna-se obsoleto. Passa a ser esse o lema da época,
mesmo que reedite a máxima separação cartesiana entre corpo e espírito. Na
cibercultura, entramos na fase de colonização interna do corpo com próteses e
nano máquinas, correlata à explosão de transformações subjetivas através dos
atuais piercings, tatoos, ou formas extremas de androgenia. (p. 7).
Câmeras
de vídeo-vigilância, spams, monitoração de acesso a sites, invasão de
privacidade, bancos de dados com informações personalizadas, violação de
direito de autor, entre outras, tudo isso não é o quadro de um filme de ficção
científica, mas o estado atual da cibercultura no quotidiano. (p. 7.).
Várias
formas de ação política são atualmente praticadas tendo como objetivo alertar a
população e impedir ações que atingem a liberdade de expressão e a vida
privada. Por exemplo, diversas manifestações aconteceram ao redor do mundo
contra a segunda guerra do Iraque e outras acontecem diariamente a favor dos
softwares livres, da livre circulação de bens simbólicos através de manifestos,
invasões, desfigura mentos de sites. O que está em jogo é a crescentes transformações
na relação entre o espaço público e o espaço privado. (p.7.).
Uma primeira lei seria a lei da
Reconfiguração. Devemos evitar a lógica da substituição ou do aniquilamento. Em
várias expressões da cibercultura tratam-se de reconfigurar práticas, modalidades
midiáticas, espaços, sem a substituição de seus respectivos antecedentes.
(p.8.).
Devemos
assim estar abertos às potencialidades das tecnologias da cibercultura e
atentos às negatividades das mesmas. Devemos tentar compreender a vida como ela
é e buscar compreender e nos apoderar dos meios sócio técnicos da cibercultura.
Isso garantirá a nossa sobrevivência cultural, estética, social e política para
além de um mero controle maquinizo do mundo. Para os que sabem e querem olhar,
nas diversas manifestações socioculturais da cibercultura contemporânea podemos
constatar que ainda há vida para além da articialização total do mundo. O
fenômeno ainda está em sua pré-história e esse objeto dinâmico se transformará
com certeza. Afirmamos que hoje, o nosso presente é imune às assepsias e
controles generalizados. Há ainda vida
na técnica e não o deserto técnico do real. (p.9.).